Como o reconhecimento facial pode destruir o anonimato?

Como o reconhecimento facial pode destruir o anonimato?

4 minutos de leitura

Reconhecimento facial está cada vez mais barato, permitindo até mesmo que amadores consigam desenvolver soluções com a tecnologia.



Por Redação em 21/05/2021

Reconhecimento facial está cada vez mais barato, permitindo até mesmo que amadores consigam desenvolver soluções com a tecnologia.

Ele está em (quase) todos os lugares. No método de desbloqueio do smartphone, nos filtros do Instagram, nas câmeras dos caixas eletrônicos, nas câmeras de segurança pública, no acesso a prédios, estabelecimentos, e em vários dispositivos.

Já sabe do que estamos falando? Se você respondeu “reconhecimento facial”, acertou!

A tecnologia continua em evidência devido a seu uso para reconhecer (às vezes, erroneamente) pessoas. Muitos questionam a segurança do reconhecimento facial, inclusive, já contamos no Mundo + Tech que cientistas da McAfee já mostraram que esse software não é tão seguro assim (saiba mais aqui).

Um exemplo é o Rekognition, programa de reconhecimento facial da Amazon. Em 2018, funcionários da companhia criticaram o projeto com o argumento de que o uso da tecnologia pela polícia poderia aumentar a violência contra minorias.

Foram necessários dois anos e uma boa dose de pressão para que a companhia desse um passo para trás e definisse que agentes de segurança não poderiam utilizar a tecnologia. A suspensão foi estendida em 2021 até segunda ordem, mostrou uma matéria do The Verge.

Apesar de a Amazon proibir a polícia de usar o Rekognition e a Microsoft e a IBM também seguir o mesmo caminho com suas tecnologias próprias de reconhecimento facial, o anonimato das pessoas parece estar em xeque.

É o que mostra um vídeo da Wired apresentado por Tom Simonite, escritor sênior do site. Como ele mostra, a tecnologia ficou tão barata que até mesmo amadores conseguem desenvolver uma solução baseada em reconhecimento facial.

Reconhecimento facial x privacidade

O reconhecimento facial não é uma inovação recente As primeiras pesquisas são datadas lá de 1964 – como mostramos em um artigo do Mundo + Tech (leia aqui). No entanto, foi lá em 2017, quando a Apple trouxe o Face ID ao iPhone, que a tecnologia se popularizou.

FIQUE POR DENTRO: As 4 eras do reconhecimento facial e seu efeito na privacidade

Entre 2014 e 2018, destaca Simonite, os algoritmos comerciais (como os da Amazon e da Microsoft) melhoraram em 20x o seu poder de reconhecer uma pessoa em uma base de milhões de fotos.

Por estar cada vez mais presente nos dispositivos, a tecnologia ficou mais barata, tornando mais fácil a sua contratação.

Mas a grande discussão sobre a adoção da tecnologia fica por conta de seu uso em locais públicos ou on-line (como o Facebook, que usa o DeepFace para rotular imagens) para identificar uma pessoa sem seu conhecimento ou consentimento.

Aqui no Brasil, uma concessionária do metrô de São Paulo foi condenada a pagar R$ 100 mil pelo uso indevido da tecnologia. Segundo matéria da Folha de São Paulo, o gênero, a idade e as emoções dos passageiros eram coletados por meio de um anúncio publicitário espalhado nas estações.

“Há pouco tempo, quando você saía em público, podia razoavelmente presumir que era anônimo, a menos que encontrasse alguém conhecido.”

Tom Somonite

As pessoas ainda são anônimas?

Em um mundo ideal, a resposta para essa pergunta seria “sim”. Mas, como dito no início desta publicação, a tecnologia de reconhecimento facial está barata. Basta um pouco de conhecimento para criar um programa capaz de reconhecer as pessoas onde quer que elas estejam.

Simonite lembra que quando a invasão ao Capitólio dos Estados Unidos aconteceu, em janeiro deste ano, muitos dos participantes tinham trocado mensagens através do Parler, uma rede social semelhante ao Twitter, mas usada por apoiadores de Trump.

Uma falha no Parler permitiu que hackers explorassem todas as imagens e vídeos da invasão compartilhados na plataforma – 6 mil imagens e 827 vídeos de muitas pessoas sem máscaras que participaram da rebelião.

Para ~sorte~ dos hackers, todos esses arquivos continham metadados de geolocalização. Então eles criaram um site chamado Faces of The Riot, em que todas as imagens foram catalogadas para exibir os retratos dos participantes.

Esse é só um exemplo de como o anonimato já não é tão anônimo assim. Só o FBI, a Polícia Federal dos Estados Unidos, contém uma base de 600 milhões de rostos, enquanto outras agências públicas utilizaram a tecnologia da Clearview AI, que em fevereiro foi acusada de coletar dados sem autorização.

A grande questão, levantada por Simonite, é que a pandemia forçou muita gente a usar máscaras. Porém, isso não impediu que as empresas de tecnologia aperfeiçoassem o reconhecimento facial, quando a tecnologia consegue identificar até mesmo quem usa algo no rosto.

“Os estudiosos dos direitos civis consideram essa possibilidade preocupante. Se você puder ser identificado aonde quer que vá, você pode não se sentir confortável participando de um protesto”, ressalta o escritor da Wired.

Discussão não é sobre a tecnologia, mas sobre políticas públicas

Para o escritor da Wired, limitar o reconhecimento facial não é olhar somente para ele, mas para a lei e as políticas públicas. Algumas cidades norte-americanas, como São Francisco, proibiram o uso da tecnologia em locais públicos para não violar a privacidade dos cidadãos.

Já em Portland, a proibição também atinge empresas privadas. No entanto, não é em todo lugar dos Estados Unidos que o reconhecimento facial é regulamentado.

Aqui no Brasil não há qualquer regulamentação específica, apesar de a tecnologia já ser usada para segurança patrimonial e autenticações, como mostra o site O Consumerista. A LGPD,  aprovada em 2020, não fala especificamente sobre a tecnologia, mas sobre a coleta de dados sem consentimento dos usuários.

Na China, a polícia pode usar alertas de reconhecimento facial ao vivo de câmeras públicas para tirar suspeitos da multidão em shows. Ou até mesmo um “telão da vergonha”, que exibe fotos de pessoas que atravessaram fora da faixa de pedestre, por exemplo.

Voltando ao caso da Amazon, no começo deste texto, a empresa não explicou por que decidiu continuar com a proibição do uso do reconhecimento facial pela polícia. Mas, em 2018, ela declarou que a moratória ajudaria o governo a estabelecer regulamentações mais rígidas.

Confira o vídeo (áudio e legendas em inglês) da Wired abaixo:

Principais destaques desta matéria

  • Reconhecimento facial é uma tecnologia que se popularizou bastante.
  • Esta presente em diversos dispositivos, principalmente nos smartphones.
  • Mas uso abusivo da tecnologia pela polícia e outras agências públicas pode colocar o anonimato das pessoas em xeque.


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