inteligencia artificial pessoas Professor Doutor Antônio Marcos Alberti (Foto: Divulgação)

“Inteligência artificial deve ser usada para o bem das pessoas”, diz Antônio Marcos Alberti

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De acordo com o professor, as empresas de inovação perceberam que, com os resultados interessantes, vale a pena investir, e por isso, entraram no jogo outra vez



Por Redação em 07/12/2023

A evolução tecnológica é um caminho sem volta, e a inteligência artificial (IA) está aí para comprovar isso. A cada dia vemos uma novidade sobre o assunto. Os estudos no setor não param e a evolução é constante. Os equipamentos estão cada vez mais modernos e a machine learning cada vez mais apurada. O homem e a máquina serão cada vez mais dependentes entre si e foi sobre isso – e muito mais –, que o Próximo Nível conversou com o Professor Doutor Antônio Marcos Alberti. Engenheiro, Alberti é também coordenador do Information and Communications Technologies (ICT) Laboratory do Inatel e programador C/C++. O especialista é doutor em Eletrônica e Telecomunicações pela Unicamp, além de pós-doutorado pelo Electronics and Telecommunications Research Institute (ETRI), na Coréia do Sul.

Com mais de 100 artigos científicos publicados, Alberti é conhecido por sua fala sobre a tecnologia e suas disrupções. Ele também é autor do livro “Novos Renascimentos”, que discute alternativas para as pessoas aproveitarem a tecnologia da melhor forma possível, para o bem da humanidade e da vida. O professor é reconhecido como pioneiro da Internet do futuro, é projetista de 6G, escritor, hacker de tendências e consultor. Confira a entrevista na íntegra.

Muitas pessoas tiveram conhecimento da IA com a IA Generativa, mais recentemente. Mas desde quando a inteligência artificial vem sendo estudada e aplicada?

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Projeto de pesquisa de verão de 1956, em inteligência artificial de Dartmouth (Foto: Joe Mehling/Wiley Online Library)

A inteligência artificial vem sendo estudada desde a conferência em Dartmouth, que aconteceu em 1956, e foi justamente quando se cunhou o termo. Naquele momento, já tinha muita gente interessada no assunto. Inclusive, podemos citar grandes nomes como Alan Turing, que é conhecido como pai da computação. Ele já tinha feito algumas coisas que tinham a ver com inteligência artificial. John von Neumann, que é o cientista que deu origem à arquitetura dos atuais computadores, em 1945, também já falava sobre inteligência artificial.

Meu primeiro contato com o assunto foi em 2008/2009 e de lá para cá muita coisa se desenvolveu. A verdade é que a ciência e a pesquisa não param.

A inteligência artificial também foi marcada por épocas?

Sim, tivemos várias épocas da inteligência artificial. A criação da ideia, a teoria da computação tentando alcançar isso também. Na década de 1980 houve uma explosão de interesses no tema e, depois disso, um “inverno da IA”, que durou do final dos anos 1980 até 2003, mais ou menos. Foi um período em que a IA estava em descrédito total, sofrendo na famosa “curva do hype”. Em 2003 foram lançados alguns livros, que despertaram novamente o interesse pela IA.

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Agora, as empresas de inovação perceberam que, com os resultados interessantes, vale a pena investir, e entraram no jogo outra vez. Os sistemas da Microsoft e do Google, são exemplos, entre outras iniciativas.

Apenas como registro, quando chegou o Chat GPT 3, os resultados eram muito precários. Ou seja, há um ano e seis meses, os resultados eram ruins, mas evoluíram desde então. O que faltava era a interação com os humanos e, agora, a partir disso, foi possível completar o gap de treinamento da IA.

Em linhas práticas, onde a inteligência artificial poderá ser usada na sociedade?

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No atual momento, já tem uma quantidade enorme de uso. Geração de conteúdos com os chats, criação de vídeos, criação de áudios, dublagens, mídia, entre outros. Numa cidade, você já pode usar essas coisas para criar uma série de soluções. Vamos pensar em uma cidade inteligente, que eu gosto de citar como exemplo de uso de inteligência artificial. Para mencionar um exemplo prático, o meu filho, que está no Ensino Médio da Escola Técnica de Eletrônica, em Santa Rita do Sapucaí, precisou, no projeto prático deste ano, desenvolver um trabalho no qual usou a visão computacional para reconhecimento de placa de carros. Funcionou perfeitamente com os carrinhos pequenininhos e as placas que eles fizeram. Eles ganharam um prêmio com a proposta de integração para estacionamento. A ideia se tornou um projeto que pode ser ampliado e usado no dia a dia.

Na parte da visão computacional, que a gente chama de reconhecimento de padrões, várias cidades do mundo estão usando para solucionar problemas, como a vigilância, por exemplo. Trata-se de uma solução de segurança pública. Quando há crimes, o monitoramento pode ser utilizado. Contudo, existe uma série de aplicações capazes de facilitar a vida nas cidades.

Pode dar mais exemplos?

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O uso de IA pode ser expandido para frotas que vão de navios a automóveis. A inteligência artificial pode ser usada nas cidades, no campo, na logística, em diversos setores da sociedade também. Mas, ainda não existem “acertos” suficientes para colocar essas aplicações em grande escala em todos os casos. Ainda falta aperfeiçoamento. Já tem IA que faz a geração de música, e isso vai melhorar muito ainda, assim como a indústria de filmes.

O Brasil 6G, um dos projetos que eu participo, tem três anos de existência. No nosso projeto, a IA está em todas as porções da rede de telecomunicações, da operadora, com aprendizado de máquina, deep learning, para entender como está a rede, montando base de aprendizado e também podendo configurar os equipamentos. Os pilotos automáticos no 6G devem ser reais.

Outra coisa que está vindo e recentemente apresentou avanço: agora se pode carregar dados online ou montar seu próprio data center de IA. Tornou-se possível criar o próprio GPT, com todo o conhecimento que uma pessoa formulou durante sua vida. As instituições e governos também terão os seus próprios arquivos. E logo surgirão outras APIs para que você possa treinar os seus bots também. Eu acredito na explosão com outros algoritmos. Tem muitos amadurecendo, que vão ajudar a melhorar os já existentes.

A cocriação com as máquinas não tem fim. Aprimorar a curiosidade de máquina, como as máquinas aprendem? Hoje somos nós que as treinamos, mas logo elas vão montar a própria visão da realidade. A tendência é de que as máquinas expliquem os porquês das coisas, no futuro. Logo as máquinas vão conseguir testar hipóteses e vão responder aos estímulos por si só.

Santa Rita do Sapucaí é smart city. Caxambu, em Minas Gerais, e Piraí, no Rio de Janeiro, já têm projetos com dados correlacionados: iluminação pública, monitoramento de frota, monitoramento por câmeras para segurança pública, iluminação dimerizada (que controla a intensidade da luz). Conectamos todos estes temas em um projeto do BNDES feito pelo Instituto Nacional de Telecomunicações (Inatel) e conseguimos correlacionar os dados.

Na sua visão, como a inteligência artificial pode melhorar a vida das pessoas nas cidades?

A IA é a tomada de decisão, é o piloto-automático. Para se tomar boas decisões, você precisa ter dados reais e precisos. Para isso, precisa ter a IoT, o braço sensor da realidade física, o braço motor, que vai ligar lâmpadas, direcionar câmeras, por exemplo.

Para esse piloto conseguir mudar a realidade das cidades é preciso que se tenha dados. Sensores são essenciais, assim como redes de comunicação, para conectar tudo isso.

Baseado na política pública, na etiqueta de uso, nas regras, na configuração reversa das cidades, costumo dizer que nossos municípios se tornarão programados por IA. E como isso vai beneficiar as pessoas? De todas as formas imagináveis! Nos semáforos, monitoramento de trânsito, iluminação pública, seria mais ou menos como usar o waze pra mudar a cidade. Por exemplo, se uma das maiores dificuldades de uma cidade é alocar equipes, a inteligência artificial pode direcionar depois de fazer a análise de dados. Essa organização da logística vai melhorar muito, baseada em dados, pois vai escolher uma rua que causa mais transtorno do que outra para que essa receba uma obra de melhoria em curto espaço de tempo.

A saúde pública, no uso dos medicamentos, tratamentos, vagas de hospital, vagas de trânsito. Imagine uma camada de pilotos-automáticos que começam a tomar decisões para ajudar a cidade a funcionar melhor. Isso vai impactar saúde, educação, condição de fragilidade, segurança, muita coisa. Não faz sentido não pensar em cidades inteligentes, não pensar na parceria homem-máquina. Isso é muito importante! Agora, tão importante quanto isso, é termos o lado humano apurado. Precisamos fazer a IA funcionar com valores humanos.

Costumo dizer que o problema não é a tecnologia. A tecnologia está aí e vai ser utilizada. O problema é: com quais valores o humano vai usar a tecnologia. Ética, cuidado com o ser humano, com a vida, toda essa questão humana é essencial em projetos de inteligência artificial. 

No agronegócio, a IA pode melhorar a produtividade, mas a dificuldade ainda é a falta de conectividade em algumas regiões. Qual seria a solução, em sua visão?

Tem localidades em que não chega 5G, nem fibra óptica. Satélites podem ser a alternativa. Essa é uma questão que está em estudo no Inatel. Eu acredito que nesse setor tem espaço para todo mundo, porque o problema de conectividade é enorme. Satélite de baixa órbita é uma boa alternativa, pois tem latência baixa, atraso baixo, já entrega com custo interessante.

No interior da Bahia já se usa starlink que conecta a população local. Agora, existe espaço para o 5G privativo e o convencional. O 5G privativo é uma aposta do Inatel. Para se montar a própria rede, de baixo custo, baseada em software open source, tem todo um grupo com radiobase, painel solar, antenas. Operando de forma privativa, se tem 100 km de diâmetro, numa frequência na banda de 700 MHz. Combinar satélite e 5G é muito legal. Além disso, tem várias tecnologias de IoT que podem ser integradas. Conectar no 5G e depois conectar no satélite é uma forma de resolver o problema, a qual não era possível no 4G.

Eu espero que o Brasil consiga usar essa infraestrutura tecnológica e levar isso para todo o país, para que logo tenhamos o agro se aproveitando disso, aumentando a produtividade e reduzindo o impacto ambiental.

Atualmente, com o desenvolvimento da tecnologia, o leque se abriu. Em sua visão, a IA poderá, no futuro, substituir algumas profissões?

Não só vai afetar como já está afetando. E vai afetar ainda mais. A popularização da IA vai reduzir a quantidade de vagas no mercado de trabalho, por exemplo. Pode acontecer também uma redução dos salários. Se tem IA que faz, é possível que as empresas paguem menos para uma pessoa fazer. Então, serão menos vagas e com menores salários. É um desafio gigantesco dar esse salto. E então surgirá também o problema no mercado consumidor, pois a desmonetização vai causar uma recessão com crescimento. É o que acontece se não mudarmos modelos e mentalidades. Se continuarmos fazendo mais do mesmo.

Tem desenvolvimento tecnológico e tem uma grande crise econômica. A questão é como ficará o índice de desenvolvimento humano. Como isso vai se desenvolver? E aí tem gente falando, por exemplo, de renda básica universal. Eu tenho uma proposta um pouco diferente, porque eu acho que se você dá dinheiro, simplesmente por dar, você acaba com a dignidade das pessoas. Elas vão se sentir inúteis, com baixa auto-estima.

Eu acho que a gente deveria criar serviços públicos e privados de curta duração, digitais. Por exemplo, a própria prefeitura que investe em um sistema inteligente, cria vagas para aquele dia e oferece isso no celular, acessível para as pessoas. Acessível até para o vizinho que pode auxiliar quem não consegue ler. Por exemplo, ao colocar esse trabalho, a pessoa faz o trabalho, recebe seu pagamento em uma carteira digital no final do dia, comprova pelo próprio aplicativo que ele fez o trabalho, porque a câmera tira foto, e a inteligência artificial reconhece que o trabalho foi feito, e entrega o pagamento.

A gente poderia equipar a sociedade com pequenos serviços. Toda uma comunidade de pessoas que vão ter dificuldade de se encaixar nesse novo mercado extremamente demandante de habilidades. Então as hard skills que a gente falava antigamente, agora, precisam se tornar soft skills também para lidar com as pessoas. Porque o lado humano está se destacando. Equilibrar a balança é muito difícil, mas eu creio que muitas pessoas terão dificuldade em reciclar na velocidade que precisa.

Eu acho que nós vamos ter impacto sim, e não precisa nem vir essa super inteligência artificial do futuro. Acredito que já nas próximas gerações de IA, tenhamos cada vez mais dificuldade.

Em sua visão, isso poderá afetar o mercado de trabalho?

Recentemente a Revista Nature divulgou um artigo comparando a criatividade de 256 pessoas com um Chat GPT 4. Foram dados problemas, com metodologia conhecida de avaliação de criatividade, tanto para máquina quanto para essas 256 pessoas. O resultado foi surpreendente. A máquina superou as pessoas em termos de criatividade. Então, você vê que já estamos numa situação em que o próprio Chat GPT 4 é mais criativo. A criatividade era justamente onde ficava o último refúgio. Já não é mais. Agora as máquinas conseguem ser criativas.

Qual é a saída? Bom, eu tenho algumas ideias. Eu escrevi um livro sobre os “Novos Renascimentos”. Um livro que traz algumas ideias de como a gente pode caminhar daqui pra frente, rumo a futuros de valores humanos apoiados em tecnologia. O fato é que a gente não vai deixar de usar a tecnologia. Isso não existe. A gente não vai viver sem tecnologia. Por outro lado, a gente tem que usar a tecnologia de forma sábia e com valores. Se fizer isso direitinho, a gente vai dar exemplo para as máquinas que vão aprender sozinhas. Porque se a gente começar a fazer engenharia inteligente usando IA, nós vamos criar as próximas gerações de máquinas que vão aprender sozinhas, que vão usar computação fotônica, neuromórfica e quântica integradas. Essas máquinas vão aprender com os nossos exemplos, então é todo mundo, a partir de agora, dando o exemplo. Uns poucos caminhos que eu enxergo são via sinergia positiva. Liderar pelo bom exemplo.

Um dos motes do Inatel é o compartilhamento de ideias, conhecimento e tecnologia para enfrentar os desafios globais. Pode nos falar um pouco sobre isso?

Foto: Divulgação

De forma geral, o Inatel tem essa cultura de usar a tecnologia para transformar a sociedade. E a ideia é essa mesma: somar com a tecnologia, usá-la positivamente para mudar a realidade, seja o tipo de tecnologia que for. Seja de conexão, seja computação. No livro, “Novos Renascimentos”, eu falo sobre usar a tecnologia para ser mais humano. Será que não poderíamos dividir tarefas com as máquinas, para termos mais tempo livre? Isso tem um custo. Na hora que você fala numa empresa: gente, vamos ter mais cuidado, não vamos estourar o número de horas. É difícil (talvez impossível) acompanhar o ritmo da tecnologia, porque o ritmo de tecnologia é exponencial e a gente vai estressando. Se a gente tenta acompanhar, ocorrem problemas. Existem muitas pessoas com Burnout, por exemplo.

Eu realmente acredito que a gente deveria usar mais tecnologia para ter mais tempo livre. Porque, provavelmente, se o seu competidor não o fizer, e você fizer, você vai ter um valor de mercado menor, e aí começam os problemas. Não é viável economicamente ser mais humano. A ideia do meu livro é prosperidade multidimensional. Você deve ser próspero em várias dimensões. A felicidade é uma dimensão de prosperidade. Mas, você tem que ter a prosperidade financeira, a prosperidade econômica, então para pagar os outros custos, você começa a usar a tecnologia, e não para acelerar ainda mais quem já tá congestionado.

Então é uma mudança de cultura organizacional, é como uma nova mentalidade individual para que se viva melhor. A tecnologia é ferramenta para pagarmos os custos de sermos mais humanos. Pense nisso!



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