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Redução do déficit de talentos em TIC passa por inclusão e diversidade

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Em entrevista exclusiva ao Próximo Nível, Sergio Paulo Gallindo e Mariana Rolim, da Brasscom, detalham o cenário do déficit de talentos em TIC e pontuam formas de combater o hiato com inclusão e diversidade social.



Por Redação em 07/06/2022

O Brasil consegue formar 53 mil pessoas em ensino superior de perfil tecnológico ao ano atualmente. Mas as empresas irão requerer 159 mil profissionais/ano entre 2021 e 2025. Sim: a conta não fecha, e estamos com um déficit de pelo menos 106 mil formações anuais

No ano passado, tínhamos mais de 1,25 milhão de empregos em softwares, serviços de TI e TI in house (que são empresas com grandes departamentos de tecnologia, como bancos). E esses empregos movimentaram uma massa salarial superior a R$ 7 bilhões de reais. Até 2025, a projeção é que tenhamos quase 2 milhões de empregos nessas áreas, o que presume a necessidade de formar e ocupar quase 800 mil novos profissionais. É o que explicam Sergio Paulo Gallindo, presidente executivo da Brasscom, e Mariana Rolim, diretora executiva e DPO da entidade. 

Nesta entrevista, eles detalham esse cenário de déficit de talentos em Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) e pontuam formas de combater o hiato, o que demanda inclusão e diversidade social.

O que explica esse déficit de talentos de tecnologia no Brasil?

Sergio Paulo Gallindo – Os nossos associados já mapeiam a escassez de talentos há algum tempo. A partir de 2018 o quadro se complicou, com as empresas começando a dizer que só não contratavam mais porque não tinham talentos. Com a pandemia a situação ficou ainda mais complexa, pois tivemos de experimentar uma aceleração atípica na demanda por esses profissionais. 

Primeiro houve a grande movimentação para o teletrabalho, o que, de certa forma, ampliou geograficamente os horizontes da empregabilidade, pois as empresas puderam contratar talentos de qualquer lugar do Brasil ou do mundo. Mas isso não supriu a digitalização, pois as pessoas em casa começaram a fazer muitas coisas, principalmente por comércio eletrônico, incluindo o crescimento vertiginoso de comida à distância e ampliando a demanda por profissionais para habilitar essas soluções. Com a aceleração digital, portanto, o Brasil passou a experimentar em grande escala o que já vinha acontecendo em outros países – que também foram acelerados, mas em menor grau, pela pandemia.

Mesmo com o déficit de talentos, o mercado tem conseguido aumentar o nível de empregabilidade?

Sergio Paulo Gallindo – Sim. Em 2020 foram contratados 43 mil profissionais de tecnologia e em 2021 foram 154 mil. Essa escalada, apesar da queda de empregabilidade que teve no início da pandemia, ocorreu com velocidade muito rápida.

Com a maior digitalização da sociedade e o crescimento de tecnologias como finanças descentralizadas, blockchain, nuvem, inteligência artificial, IoT, etc., quais perfis de vagas têm se destacado no setor?

Mariana Rolim O estudo da Brasscom fez uma separação dos maiores geradores de empregos por tecnologias maduras, emergentes e de nicho. Entre as tecnologias maduras estão os profissionais de big data, cloud e mobile, concentrando 60% da demanda de mão de obra especializada para os próximos cinco anos. Ocorre que, mesmo identificando essa demanda, as empresas não conseguem gerar, em quantidade necessária, a formação desses profissionais e por isso elas têm trabalhando na requalificação do seu quadro de trabalhadores para ocupar as posições. Em contrapartida, nós, da Brasscom, temos defendido a formação de desenvolvedores web, que são profissionais de estágio mais inicial, mas que, como comentado, representam uma grande faixa da lacuna que temos no mercado.

Até que ponto o modo de recrutamento, que costuma considerar características que são mais comuns em determinados grupos da sociedade, está limitando as possibilidades de contratações nas vagas de tecnologia?

profissionais de tecnologia

Sergio Paulo Gallindo – Não creditamos essa questão do déficit de talentos às empresas, e sim à educação. Fizemos um estudo sobre educação e nos deparamos com situações muito graves em 2019. O primeiro ponto foi que há baixo interesse dos alunos que terminam o Ensino Médio regular por tecnologia. Na época, tínhamos dois candidatos disputando uma vaga e isso já mostrava interesse menor em relação a outros cursos de exatas, como a engenharia, onde a disputa era de três pessoas por vaga. Se compararmos com outros setores, como a medicina, a diferença é ainda mais gritante.

Outro ponto que identificamos foi uma certa obsolescência curricular, o que eleva a evasão dos alunos, mesmo nas faculdades. Nesse caso, os cursos mais modernos, como o de engenharia de softwares, têm evasão menor do que os mais tradicionais, como análise de sistemas.

O terceiro ponto entendido foi a insuficiência socioeconômica, pois a evasão muitas vezes ocorre por conta da necessidade, da pressão, que os jovens de classes socialmente desfavorecidas sofrem para contribuir com o orçamento familiar. Com esse cenário, entendemos porque os fatores socioeconômicos influenciam absolutamente na evasão, expondo de maneira clara o porquê não conseguimos formar profissionais de TIC em quantidade suficiente.

Então há relação socioeconômica com a falta de profissionais no setor…

Sergio Paulo Gallindo – Tudo isso que expus acima leva a uma dificuldade de formação de pessoas, inclusive o próprio Ensino Médio regular, onde matemática e ciência, de modo geral, não são matérias valorizadas como deveriam ser. Aí, quando há debilidade social, a evasão fica absolutamente desproporcional dados os fatores socioeconômicos.

O que você define por fatores socioeconômicos?

Sergio Paulo Gallindo – A diversidade é um dos principais. O desinteresse pela tecnologia é assimétrico quando se relaciona fatores de diversidade e isso se reflete no setor. Se pegarmos o contingente de pessoas empregadas atualmente, perceberemos que mais de 70% das áreas técnicas das empresas de tecnologia são preenchidas por homens brancos. Então, nos perguntamos – e ainda não temos um estudo conclusivo – sobre o que chamamos de “interdito social”. Isso diz respeito ao fato de o menino preto ou a menina preta – e mesmo a menina branca – entrarem no Ensino Médio regular e, por alguma razão, entenderem que tecnologia não é para eles.

Isso é bem complexo, não?

Sergio Paulo Gallindo – Muito, mas precisamos enfrentar, e rápido, essa questão da diversidade. E dentro das diversidades, a mais difícil e necessária de lidar, dados os números sociais, é a racial. Precisamos fazer com que as pessoas de todas as etnias e recortes sociais saiam da escola achando que tecnologia é sim para elas.

Vocês têm outras informações que possam subsidiar o mercado nesse sentido?

Sergio Paulo Gallindo – Temos alguns. Os estudos do Ministério da Educação – que faz a gestão das olimpíadas de matemática – comprovam, por exemplo, que não há questões relevantes de aptidão entre meninos, meninas, brancos, pretos ou qualquer outro grupo social. Ou seja: está mais do que comprovado que, nas faixas etárias menores, o grau de aptidão é equitativo. Isso só nos convence definitivamente, portanto, que o que deve ocorrer é algum processo de bullying capaz de afastar contingentes fora dos meninos brancos das áreas de tecnologia.

Em termos práticos, o que já é possível ser feito contra isso?

Mariana Rolim – Muitas coisas e uma delas nós estamos conduzindo, que é o Programa de Aceleração da Capacitação em TIC, que chamamos de EuTec. Devido à escassez de mão de obra que pesquisamos, conforme detalhado nesta entrevista, identificamos uma série de insights e um deles mostra que, quanto mais elevada a carga da capacitação, maior o volume de evasão. 

Com base nisso fomos provocados a propor algo e criamos o programa de capacitação, focado em desenvolvedor web formado sob uma grade curricular de 264 horas, incluindo matérias técnicas e socioemocionais, já que esta última é uma das questões mais importantes identificadas para a continuidade dos estudantes desse setor. 

Qual é o público e em que fase está o programa?

Mariana Rolim – O público alvo tem de 15 a 30 anos. Ou seja, temos de jovens a profissionais em transição de carreira. Fizemos uma primeira edição (piloto) no ano passado e ela foi custeada pela própria Brasscom. Mas o modelo é que a entidade seja somente gestora operacional e financeira, de modo que selecionamos instituições de ensino como parceiras de capacitação, como ONGs, ICTs e EduTechs, e estamos buscando recursos de fundos públicos e privados para conseguir massificar a iniciativa.

No programa piloto tivemos 100 alunos, selecionados por quatro de nossos parceiros capacitadores. Um deles foi a Fundação Zumbi dos Palmares, focada nos negros. Outra foi o Mackenzie e as duas restantes foram organizações sem fins lucrativos, o Instituto da Oportunidade Social e a Generation Brazil, que teve turma dedicada só a mulheres. 

Qual foi o resultado do programa piloto?

Mariana Rolim – Foi muito bom, com taxa de evasão de 17%, o que é bem abaixo da média das graduações em tecnologia (32%). É importante explicar que conseguimos esses resultados porque concedemos bolsa de estudo visando apoio alimentação, transporte e internet, de modo que os alunos pudessem se manter durante o curso. Também houve um reconhecimento financeiro pela conclusão do curso.



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